Brasília: Uma visita ao Museu do Catetinho

Conhecido por muitos, visitado por poucos. Esse é o Museu do Catetinho, projetado por Oscar Niemeyer e construído em apenas dez dias para abrigar o presidente Juscelino Kubitschek em visita às obras da nova capital federal. O Palácio de Tábuas, como inicialmente foi conhecido, está distante de todas os outros monumentos, museus e pontos turísticos de Brasília. Talvez por isso não seja tão visitado, até mesmo pelos que moram na capital. Eu mesmo, entusiasta da história de Brasília e morando aqui há quase sete anos, só visitei agora no final de 2012. Uma vergonha, eu sei!

Museu do Catetinho | Vista Geral

E os empurrãozinhos que faltavam foram o post da Anna Bárbara do Nós no Mundo e o convite de amigos, também moradores e que, assim como eu, também acumulavam essa dívida com Brasília.

O pioneirismo

O Catetinho é considerado símbolo do início da construção de Brasília. Foi aqui onde muita coisa primeiro aconteceu na capital. Foi a primeira obra, a primeira casa, o primeiro hotel, onde foi gerada a primeira fonte de energia elétrica e de onde originaram as primeiras comunicações de Brasília com o Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Goiânia.

Nada mais justo, então, que esse post inaugure uma série de outros que irei escrever para divulgar os pontos turísticos de Brasilia.

Senta que lá vem história

A ideia do Palácio de Tábuas nasceu de uma conversa informal entre amigos do presidente JK. Eles não viram com bons olhos a hipótese do amigo e presidente ter que dormir em barracas quando visitasse as obras da nova capital. Surgiu então a ideia de se reunirem para a construção de uma casa de madeira. Oscar Niemeyer, um dos amigos, foi quem pegou um pedaço de papel e começou a rascunhar o projeto.

A partir daí o entusiasmo tomou conta. Em prazo recorde levantaram fundos e convocaram trabalhadores em Araxá, onde  existia uma fábrica de adubos fundada por JK, a FERTISA. Foi também de Araxá que vieram a maioria do maquinário e material para a construção. Se você é araxaense, saiba que foram conterrâneos seus quem deram o pontapé inicial para o início das obras da capital do nosso país. Tenham orgulho disso! 😉

Enfim, como já disse no início deste artigo, as obras foram concluídas em dez dias, de 22 a 31/10/1956. E inaugurado dali mais dez dias, com a presença do presidente Juscelino Kubitschek. Encantado com o feito dos amigos, JK disse o seguinte:

Se meus amigos praticaram este milagre em tempo recorde, apenas com idealismo e sem recursos oficiais, por que não poderei construir a nova Capital, já que disponho, no Governo, de toda uma infra-estrutura administrativa e de recursos financeiros?

Como é o Museu do Catetinho

O projeto do Catetinho é majestoso e ao mesmo tempo simples. A suíte do presidente, a de hóspedes e uma sala de despachos estão preservados e decorados com mobiliário da época.

Museu do Catetinho | Suíte do PresidenteMuseu do Catetinho | Os criados da cama do presidente

Mas nem tudo ali são objetos originais. Em 1997 o museu passou por uma restauração e vários dos objetos foram recuperados, adquiridos em antiquários ou doados por terceiros. Mas você não precisa ser tão chato assim (como eu!) e ficar fazendo tais observações. A ambientação e a conservação do museu estão impecáveis.

Ele é quase todo de madeira, eu digo quase pois o piso dos banheiros apresenta alvenaria.

Museu do Catetinho | Quarto de Hóspedes

A sala de despachos do presidente é muito charmosa até para os dias de hoje, exceto pelo tapete feito de couro de animal e estendido no chão da sala. Os politicamente corretos condenariam esse detalhe da decoração.

Museu do Catetinho | Vista ampliada da sala dos despachosMuseu do Catetinho | Sala de Despachos

JK adorava uma seresta. E aqui você encontra um bar onde provavelmente elas aconteciam, decorado com garrafas de bebidas da época e um violão em exposição. O instrumento é do amigo seresteiro e violonista Dilermando Reis, que além de ter sido professor de música de Juscelino Kubitscheck, foi quem batizou o até então Palácio de Tábuas em Catetinho.

Museu do Catetinho | Bar e o violão de Dilermando Reis

E olha o que temos no térreo do palácio: Um pilotis, velho conhecido dos moradores de Brasília. Não tem como olhar para essa obra e não perceber que ali tem dedo do Niemeyer.

Museu do Catetinho | O Pilotis

Eis então a primeira das milhares de edificações com vão livre da capital.

E o JK, como bom mineiro, gostava de coisas simples e singelas. E você percebe isso em todos os pontos do museu, principalmente na cozinha. Eu, que sou filho, neto e bisneto de mineiros, voltei no tempo. Relembrei as visitas e férias que eu passava na fazenda dos meus avós no interior de Minas, o fogão de lenha, a lamparina de querosene, os copos e pratos esmaltados, o queijo fresco e o pão de queijo sobre a mesa… hmm.. pura nostalgia!

Museu do Catetinho | Fogão de LenhaMuseu do Catetinho | Lamparina, Queijo e Pão de Queijo

Água de beber

Estratégicamente construído nas proximidades de uma nascente, ao visitar o Museu do Catetinho, não deixe de caminhar pelas trilhas que levam ao Olho d’Água, nascente que inspirou Tom Jobim e Vinícius de Moraes a compor “Água de Beber“, um hit da Bossa Nova que nasceu ali, no Catetinho.

Museu do Catetinho | Olho d'Água

Reza a lenda que, em visita a Brasília para a composição de uma sinfonia que seria tocada na festa de inauguração da nova capital, Tom e Vinícius, que também eram amigos de JK, ouviram um barulho que vinha da mata. Perguntaram a um vigia o que seria aquele barulho, que respondeu: “É aqui que tem água de beber, camará.”

Museu do Catetinho | Água de Beber

Muita história para um lugar só, não? 😉

Mais um motivo para que você comece o seu tour em Brasília pelo Museu do Catetinho.

Como chegar

Ao Museu do Catetinho só se vai de carro. Desconheço formas de se ir de transporte público coletivo. Caso você conheça um meio, pode colaborar com a gente e divulgar ai nos comentários.

Da área central de Brasília até lá são 27 km. Em condições normais de trânsito, 30 minutos de viagem. Vá pela saída sul, via BR-040 que liga Brasília ao Rio de Janeiro, em direção ao Gama. Mas não se preocupe, antes mesmo de se aproximar do museu, há várias placas com indicações. Se preferir usar o GPS do celular, eu dei aqui no blog dicas de como usar o aplicativo Waze para chegar ao seu destino turísitico. E o teste que fiz para escrever o post foi justamente nessa visita ao Museu do Catetinho.


Exibir mapa ampliado
O estacionamento é gratuito.

Informações Adicionais

– Várias das informações históricas deste post eu consegui após ler, através da indicação do Nós no Mundo, a obra de Ahilton Guimarães chamada A Construção do Catetinho. Todo o conteúdo está disponível no site. Se você é, assim como eu, curioso pela história de Brasília e ainda gosta de visitar locais conhecendo previamente o contexto histórico, recomendo fortemente a leitura.

Vídeo com reportagem do Jornal da Globo, da época das comemorações dos 50 anos de Brasília, falando, entre outras coisas, sobre a história da composição do Água de Beber de Tom e Vinícius.

 – A entrada é gratuita e o Museu do Catetinho funciona todos os dias das 09:00 as 17:00.

Compartilhe este artigo!

Comentários

  1. wilton
    13 fev 2013

    adorei. bem completo e didático.

  2. Tatiana
    14 fev 2013

    Marcelo, completaço!! Parabéns!!! Tava ótimo!!!

  3. Oi Marcelo!

    Turistando em Brasília!! Viva!!! 🙂

    Adoro esses passeios culturais!! O texto ficou ótimo! Divertido e informativo ao mesmo tempo!

    Obrigada por citar o Nós no Mundo!!

    Bjs, Anna Bárbara

    • Viu só? Estou aprendendo com você!
      Espero que este seja o primeiro de muitos posts sobre Brasília aqui no blog. 😉

  4. Geraldo Eustáquio Drumond
    14 ago 2013

    Ó T I M O !

    ATÉ O RÁDIO! TENHO UM, RIGOROSAMENTE, IGUAL.

  5. Pingback: Guia de Viagem para Brasília | RBBV – Rede Brasileira de Blogueiros de Viagem

  6. JULIANA
    03 set 2014

    VISITEI O CATETINHO MÊS PASSADO,
    E UM LUGAR MUITO BONITO.

  7. Jessi Souza
    16 set 2014

    Tem como ir de ônibus mesmo,pegando da rodoviária do Plano Piloto com informações dos que passam pela BR 040 como o Santa Maria, Gama, Valparaíso. Vale a pena 🙂
    bjs

    • Jessi,
      ótima dica! São de informações como esta que precisamos para enriquecer o post. 😉
      Obrigado pela visita!

  8. vera siqueira
    28 jan 2015

    Olá,
    Gostei do post. Sou museóloga e trabalhei nessa montagem da exposição, em 1997, com o pessoal da Fundação Roberto Marinho (patrocinadora). Os utensílios dos quartos e banheiros foram adquiridos em antiquários. A cozinha é bem cênica, a original era muito simples, com sabugos de milho pendurados no teto (existe essa foto no Arquivo Público do DF). Os utensílios (colheres de pau, panelas, canecas, bules etc.) foram comprados na loja Nova Capital (aqui de Brasília). As panelas foram envelhecidas. O queijo, o pão-queijo, as linguiças etc. foram feitos por um profissional da mesma Fundação (que trabalha para escolas de samba do Rio). De original, há a primeira bandeira hasteada no local (está emoldurada), um telefone de baquelite preto (onde foi parar?), uma partitura restaurada, os móveis, o quadro da sala e as camas dos quartos.

    • Vera, que legal ver o seu depoimento por aqui. E parabéns pelo belo trabalho! Como eu disse no post, tudo está impecável. Toda a montagem foi feita com muito capricho. Obrigado pela visita! 😉

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *