São Luis: Na terra do guaraná cor-de-rosa

Uma vez contando a minha irmã Polliana sobre uma viagem frustrada que eu havia feito a uma cidade que já fui inúmeras vezes, ela me disse que eu deveria parar de ficar insistindo em viajar para os mesmos lugares e dar chance a outros. Refleti e percebi que ela tinha razão, que esta seria a única forma de colocar em prática a minha lista de lugares para conhecer antes de morrer. E desde então planejo meus destinos de uma forma diferente.

E foi com esse pensamento que vasculhei o site da Gol na promoção do final do mês de Fevereiro. A premissa, além de ser um destino inédito, era ser barato e fazer parte da minha listinha. E eis que o destino que casou perfeitamente com estes requisitos foi São Luis do Maranhão

Comprei no escuro. Sem falar com ninguém e muito menos pedir opinião. Ida na sexta a noite e voltando na madrugada de domingo para segunda. Logo mais contei minha loucura para meu amigo Handerson e ele, além de comprar a idéia, também comprou bilhetes no mesmo voo. Pronto! Já tinha companhia para a viagem.

Somente na semana anterior a viagem é que me preocupei em levantar informações sobre o que fazer na cidade e até mesmo reservar hospedagem. Com o espírito de mochileiro, procurei pesquisar sobre albergues na cidade. Quase todas as informações que obtive sobre eles me levaram ao Solar das Pedras, prometendo além do trivial, localização estratégica no Centro Histórico de São Luis. Liguei para saber sobre disponibilidade e me disseram que essa informação somente pelo site. Dai você deve imaginar: Mas essa exigência é prq eles devem ter um sistema online de reservas. Necas! O que eles têm é um formulário puro que dispara as informações por e-mail e alguém consulta a caderneta e depois responde. Se é pra ser assim, prq não responder por telefone? Mas pelo menos a tarifa eles informaram: R$ 45 por pessoa em quarto coletivo.

Continuando com as pesquisas, fui parar no site da Pousada dos Leões. Esta, apesar de também exigir que a reserva fosse feita pelo site ou por e-mail, pelo menos informou sobre a disponibilidade de vagas por telefone. A tarifa me agradou: R$ 105 pelo quarto duplo com café da manhã. Nada mal! Localização também estratégica no Centro Histórico. Fechou!

E lá fomos nós, com a mochila nas costas e sem saber muito o que faríamos por lá. De antemão quero deixar claro que a principal lição aprendida dessa viagem: Nunca devemos montar nenhum roteiro sem antes consultar o blog do Ricardo Freire. Mas que roteiro? O problema todo foi este, não tínhamos roteiro algum!

Já desembarcado em São Luís e saindo da área refrigerada do aeroporto já veio aquele Déjà vu: Manaus Feelings! O calor e a umidade me remetia a cidade que tanto amo. Já me senti em casa.

No aeroporto compramos o bilhete de táxi de uma cooperativa. R$ 30 a tarifa flat até o centro da cidade. Aceitam cartão de crédito. O taxista foi pouco comunicativo, o que foi estranho. Um taxista no nordeste que não gosta de interagir? Enfim, daremos um desconto pois já eram 2 da manhã.

Check-in feito na pousada. Para o espírito da viagem e para quem planejava hospedar em albergue, a pousada atendeu super bem. Quarto bom, com ar condicionado (importantíssimo!) e wi-fi for free! Só não podemos qualificar o café da manhã, pois perdemos nos dois dias. 🙂

No primeiro dia, sábado, saímos na vibe para-onde-o-nariz-apontar e neste clima fomos batendo pernas pelas ruas estreitas do centro histórico até encontrar, na praça Benedito Leite, um Centro de Informações Turísticas.

Neste local pudemos obter um mapa turístico da cidade e algumas dicas de locais importantes para conhecer. A moça que nos atendeu foi super simpática e atenciosa, só deu uma dica errada, a de uma praia que falarei logo mais.

Nos orientou a continuar batendo pernas por aquela região, conhecendo os casarões azulejados, as lojas de artesanatos, os museus e os restaurantes típicos. E foi o que fizemos debaixo de uma lua de 40 graus, com a exceção do restaurante que acabamos optando por ir para a praia e comer qualquer coisa em alguma barraca.

Museu de Artes Visuais – Rua Portugal

Rua Portugal

Lojinha de Souvenirs

Não é preciso caminhar muito pelo Centro Histórico de São Luis, declarado patrimônio mundial pela UNESCO em 1997, para se deparar com as péssimas condições de infraestrutura e o estado de abandono dos casarões coloniais dos séculos XIX e XX. Muitos deles em estado de ruína e podendo desabar a qualquer momento. Lamentável. Alô IPHAN!

Depois de adquirir alguns souvenirs, fomos para o terminal integração tomar um ônibus para a Praia de São Marcos, indicada pela nossa amiga do Centro de Informações Turísticas, que também nos informou que neste local pegaríamos ônibus para qualquer parte da cidade. E lá fomos nós.

A experiência em utilizar o sistema de transporte coletivo da cidade, como era de se esperar, não foi das melhores. Os motoristas andam como se carregassem animais. Mesmo sentado você tem que se agarrar ao que pode para não ficar revirando dentro do ônibus. Se alguém quiser experimentar, o sistema de transporte é integrado e com R$ 2.10 você roda a cidade inteira. Optamos em ir somente até a Praia de São Marcos.

Calçadão da Praia de São Marcos

Se meu objetivo fosse pegar uma praia, com certeza esse destino não seria São Luis. Acho que isso está claro para todo mundo, né? Não dá pra esperar muita coisa, comparando com as praias das demais capitais nordestinas. Mas se você já está por lá, não custa nada dar um pulinho para contemplar o horizonte e até mesmo descarregar as energias na areia e no mar.

A variação da maré é impressionante. Quando saímos da praia a água já estava chegando próxima a nossa mesa.

Após tomar uma cerveja, comer alguns petiscos, e dar mais um rolé pelo calçadão, o calor escaldante desanimou. Pegamos o bumba de volta ao terminal de integração, sacode daqui e dali e em pouco tempo chegamos. Na caminhada até a pousada, passamos na porta do Teatro Arthur Azevedo, cartão postal da cidade. A bilheteria estava aberta e o movimento nos chamou a atenção. Fomos “ver de colé” e o “vuco-vuco” era para a venda de ingressos do stand up do Diogo Portugal. Nem sou fã de stand up, mas como estávamos no clima  não-estamos-fazendo-nada-mesmo, compramos ingressos. R$ 50 sem meia e sem choro.

Depois de voltar para a pousada (100 metros dali), tomar um banho e descansar, voltamos ao teatro. E que teatro! Teatro Amazonas feelings! Diferente do Centro Histórico, super bem conservado!

Teatro Arthur Azevedo

Ficamos empuleirados em um desses camarotes do 3° pavimento. A visibilidade para o palco é perfeita em qualquer posição. Esse lustre de cristal é um espetáculo a parte. Antes de iniciar o espetáculo ele sobre gradativamente. Pena que a essa altura já não tinhamos mais permissão para utilizar a câmera.

Ao final do espetáculo, aliás, muito bom por sinal, saímos e pegamos o primeiro táxi que apareceu. Pedimos para los levar em algum restaurante típico da região. O taxista, maranhense e ex-morador de Brasília, nos recomendou a região do Reviver, ali mesmo no Centro Histórico.

Restaurante d’Antigamente

O local, além dos bares e restaurantes, é repleto de manifestações artísticas e culturais. Sentamos no Restaurante d’Antigamente. Música ao vivo rolava de fundo. E engana-se quem pensa que estava tocando Regaee. MPB e Rock’n Roll, de tudo um pouco. E foi nesse restaurante que algo inusitado aconteceu. Um moço, aparentemente um morador de rua, me abordou e pediu um pouco do que estávamos comendo. Não pediu dinheiro. Só um pouco de comida pois ele estava com fome. Disse que era de Alcântara e que voltaria a sua cidade no dia seguinte pela manhã. O bom samaritano aqui permitiu que ele sentasse e comesse o que restava da nossa carne de sol com mandioca. E foi ai que começaram os problemas.

Não com o pobre faminto, mas com os garçons, seguranças e até a dona(?) do estabelecimento. Todos vinham a todo o momento saber o que estava acontecendo. Que cena absurda era aquela. Como um morador de rua senta a mesa e come com um cliente? Tentamos explicar por diversas vezes que nós tínhamos permitido. Mas tudo foi em vão. Até que a nossa paciência se esgotou e pedimos que o moço se retirasse da mesa e que fosse feito uma quentinha com o restante da comida e entregue a ele. E mesmo assim tivemos que explicar por mais algumas vezes.

Enfim, 4 cervejas Antartica Original e o polêmico prato de carne de sol, couvert e o serviço: R$ 78 para duas pessoas.

Após o ocorrido, várias coisas passaram pela minha cabeça. Estávamos no 2° estado mais pobre do Brasil, segundo o Centro de Políticas Sociais da FGV. E o preconceito e a intolerância ocorridos ali veio de semelhantes, de pessoas nativas da mesma região. Olhando por uma perspectiva mais ampla, miseráveis intolerantes a miseráveis. Mas quem se importa? Enfim.

Bom, novamente saímos para onde o nariz apontasse. Na mesma região, passamos na porta de uma balada tunts tunts. A casa era a Chez Moi. R$ 20 para você dar ao ar da graça lá dentro. Sem consumação. Lá dentro muita gente bonita e Long Neck a R$ 3.5. Iei Iei Iei Iei! 2 horinhas depois já era hora de voltar “para casa”. 🙂

No dia seguinte, como já disse, também perdemos o café da manhã da pousada. Comemos em uma loja de conveniência próxima dali, pegamos um táxi e fomos parar, por indicação da moça do Centro de Informações turísticas, na praia de Araçagy. Longe! Extremamente distante do centro! R$ 35 a corrida de táxi. Pegamos o cartão do taxista para a volta e marchamos pela areia. Aquela movimentação de carro na areia logo me causou estranheza. Aos poucos fui entendendo. Pensem em uma praia estilo drive in, onde cada carro vai parando de maneira bem organizada ao lado de uma mini-barraquinha com guarda sol, estilo drive-thru. Agora imagine que cada carro venha com o seu kit completo de pic nic na praia. Associe cada carro a uma trilha sonora. Desconsidere bom gosto musical. Pronto! Essa é a praia de Araçagy. Como amo aquela mocinha do Centro de Informações Turísticas!

Praia de Araçagy

Sentamos em uma barraca para tomar duas coca-colas e uma casquinha de carangueijo – R$ 14, enquanto contemplávamos o horizonte e o background musical. Se você está no inferno, abraça o capeta. Não é isso que diz o ditado? 🙂

Se fu*** mermão! :D

Duas horinhas depois marchamos de volta. Ligamos para o taxista e pedimos para ele nos levar para um shopping. Tudo que queríamos naquele momento era comida normal e ar condicionado. Mais R$ 28 de corrida.

E eis que encontrei Jesus! E segui seu conselho: Tomai todos e comei! 🙂

Esse risoto de camarão ao molho pesto e uma latinha do guaraná cor-de-rosa no La Favorita do Shopping São Luis por R$ 19.

E assim encerramos nossa passagem inédita por São Luis. De lição aprendida, reforçando o que já disse sobre o planejamento, não dá pra viajar em um espaço tão curto de tempo sem ter um mínimo de planejamento. O aluguel de um carro (com ar condicionado) ajudaria bastante. Poderíamos ter explorado melhor a cidade, ir nos locais certos e com as dicas certas. Mas enfim, valeu pela experiência.

Espero voltar ao Maranhão, desta vez para conhecer os Lençóis Maranhenses. Outro local que está na minha listinha de lugares para conhecer antes de morrer.

É isso! 😉


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9 Comentários para "São Luis: Na terra do guaraná cor-de-rosa"

  1. Leandro disse:

    Descrição fiel e perfeita de São Luís. E olha que vc nem viu tudo. Talvez nem precisasse. Agora se prepara que vai pintar um monte de ludovicense com dor de cotovelo para reclamar das suas descrições da cidade e dizer que São Luís é o melhor lugar do mundo para se viver.

  2. Pelas fotos achei a cidade bem agradável. Mas a praia realmente parece que deixa a desejar. De qualquer forma, se vc não tivesse ido lá, não teria a real noção de como é a cidade… só viajando mesmo para saber.

  3. Rosa disse:

    Olha que coincidência, tava pesquisando sobre drive-in da minha cidade, no google e, um dos links foi seu blog, então começei a ler pra ver o que tinha a ver com minha pesquisa. Tinha vc falando de sua trágica experiência aqui em slz; e só pra fugir a regra da primeira postagem, essa mensagem nao é para externar dor de cotovelo não. Pelo contrário, é pra ser solidária e reconhecer que precisamos melhorar muiiiito como cidade turística. Peço, inclusive, desculpas pelo comportamento provinciano e preconceituoso de algumas pessoas, quando você deu comida a um pedinte. Ahhh, e pra terminar, sou irmã do dono do albergue… vou levar suas reclamações a ele. 🙂
    No mais, espero que sua próxima estada em slz retire essa “péssima primeira impressão” (aconselho a vir na segunda quinzena de junho, onde acontecem os festejos juninos). Inté…

  4. Marcelo Lemos disse:

    Oi Rosa!
    Tenho um carinho muito grande pelos maranhenses. Tenho vários amigos daí, amigos que considero irmãos de verdade. Acho que minha frustração maior foi por conta disso, a expectativa era muito alta.

    Mas nem por isso o Maranhão está fora dos meus planos. Espero voltar para conhecer os Lençóis. E espero voltar e encontrar uma São Luis menos esquecida e menos cruel consigo mesma 😉

    Obrigado pela visita.

  5. Kaleen disse:

    Adorei seus comentários sobre a cidade. Estou fazendo o meu roteiro para ir a São Luis e serão muito úteis.

    Abs.

  6. Caro Marcelo sinto dizer que não conheceste SLZ..tiveste apenas uma primeira impressão, e infelizmente, não das mais agradáveis. Trabalho com turismo aqui e sei que ainda falta muito para nossa cidade decolar de vez no cenário turistico nacional. Por outro lado, SLZ merece no mínimo uma sensibilidade maior pois esta cidade tem muita originalidade e autenticidade, Algo já perdido em cidades mais turistificadas. Começaste bem com a descrição da semelhança do nosso clima com manaus. Somos uma espécie de nordeste amazônico, para começar com as singularidades…o abandonado centro historico, agora com muitas revitalizacoes por conta dos 400 anos, êh o maior do Brasil e o maior acervo colonial civil português do mundo, sem falar de seus vários museus, casas temáticas, palácios, feiras, azulejos….a nossa cultura popular êh uma das mais ricas do pais e nossa gastronomia êh muito mais do que o guaraná Jesus…as nossas praias, ahh as nossas praias, tem uma beleza diferente, e não uma beleza clichê..sao praias com aguas turvas ao esverdeado típicas do litoral norte, com a sua variação de mares, bem observado por você alias, mornas, areias batidas, manguezais frondodos, dunas..alias..não reparaste que na praia de sao marcos em vez de prédios sao dunas?!?! Pois êh meu caro…sao Luis êh isso e muito mais..certamente não êh um destino para apenas um fim de semana, êh o Brasil em sua mais pura essência..e se ainda não êh destino certo para o turista comum que procura “shopping centers”, com certeza êh destino perfeito para o viajante que vem em busca dos “mercados”. Espero que voltes a nossa cidade com um novo olhar, com mais tempo, planejamento e estudos sobre a nossa cidade-ilha. Tenho certeza absoluta de que veras mais miséria, mas te encantaras com uma riqueza humana sem paralelo e uma cidade-ilha quase
    quatrocentona única e bela como só ela pode ser, se te permitires mais tempo e principalmente enxergar alem do cartao postal.

    • Marcelo Lemos disse:

      Rafael, vc foi muito feliz em seu comentário. O primeiro a defender São Luis com tanta propriedade.
      E coincidência ou não, hoje li sobre os 400 anos de São Luis e a restauração do Centro Histórico. Virou até locação da nova novela da Globo, não é mesmo? Isso é um ótimo sinal.
      Espero muito voltar a São Luis e encontrá-la diferente, podendo voltar aqui e contar minha experiência de outra forma.
      Tenho uma grande amiga ludovicense e também já fiz esse compromisso com ela.
      Obrigado pela visita! 😉

  7. Elaine Castro disse:

    Muito útil! Também comprei a passagem no impulso, numa promoção da companhia aérea, e estou tentando ter o mínimo de planejamento. 😉 Jesus me ajude! (e aqui não estou falando do guaraná). Obrigada pelas dicas!

  8. JOSÉ DOMINGOS DOS SANTOS disse:

    São Luis, capital do Maranhão, Cidade Histórica Patrimônio Cultural da Humanidade. Que teve na sua construção o toque dos Franceses, Holandeses e Portugueses. Já estive por duas vezes nessa cidade, e cada vez encontrei a cidade mais bonita e acolhedora. Toda cercada de água e no centro antigo uma visita ao passado com os casarões centenários. Cidade que a natureza está presente. O que observei foi o pouco cuidado do poder público na conservação,e as praias pouco frequentadas.Vale apenas visitar e conhecer a cidade. e dar uma passada na Lagoa da Jansen que fica no centro da cidade.
    José Domingos dos Santos – Vitória de Santo Antão -PE

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